Carnaval e geada na rota dos sete transportes de Subios ao Brasil

21/02/2020

Por Klaus Pettinger*

A Quarta-Feira de Cinzas de 1952 anunciava o incio do tradicional perodo cristo de reflexes e mudanas. Para as famlias subias do stimo e derradeiro transporte do chamado projeto Brasil, atracar na capital Rio de Janeiro representava uma transformao e tanto, naquele 27 de fevereiro. Mesmo que todo Carnaval tenha seu fim, como diz a msica, houve tempo para que os 412 Subios do Danbio recm-chegados fizessem um breve city tour pela Cidade Maravilhosa, no dia seguinte. Mas antes que pudessem se empolgar com o samba e a caipirinha (o drink, no caso), o navio Provence zarpou para a ltima parada no Porto de Santos, local em que os 2.446 integrantes dos sete transportes do projeto imigratrio pisaram definitivamente o solo tupiniquim.

Alis, a relao dos Subios do Danbio com o Carnaval sempre existiu, ainda que seguisse as prprias tradies. Nada que impedisse a participao do Grupo Folclrico de Danas, em 1995, do desfile da Unidos da Ponte (nome sugestivo para quem vive entre rios), em plena Marqus de Sapuca e com transmisso ao vivo para todo o pas vale a busca no YouTube e uma futura coluna dedicada ao assunto.

E j que falamos de samba e caipirinha, cabe acrescentar o futebol como ferramenta de contextualizao histrica. Enquanto a Seleo Brasileira perdia a Copa do Mundo para o Uruguai, em meados 1950, o engenheiro agrnomo Michael Moor e a Ajuda Sua para a Europa ainda temiam pelo insucesso do projeto que levaria 500 famlias de Subios do Danbio ao Brasil. O encerramento dos mandatos do governador de Gois (primeira localidade cogitada) e do presidente Eurico Gaspar Dutra exigiram habilidade poltica e agilidade, a fim de evitar um Maracanao humanitrio.

As articulaes surtiram efeito e estimularam uma corrida contra o tempo. Enquanto Moor retornava ao Brasil, em fevereiro de 1951, decidido a definir o local exato de abrigo aos refugiados da Segunda Guerra Mundial, a Ajuda Sua abria um escritrio na cidade de Linz, na ustria, no qual os interessados em migrar ao Brasil poderiam se inscrever. Por fim, deu tudo certo, e o primeiro transporte deixou Linz no dia 19 de maio de 1951, para a viagem de aproximadamente 800 quilmetros de trem at o porto de Gnova, na Itlia.

Em 22 de maio, os 221 Subios do Danbio a bordo do navio Provence davam adeus Europa. Foram cerca de quinze dias em alto mar, com paradas para sarar os enjoos da viagem (e outros pormenores) em Dacar, capital do Senegal, e no Rio de Janeiro, antes da chegada ao porto santista. O menor dos trajetos, porm, entre Santos e Ges Artigas, tornou-se tambm o mais demorado. Os europeus, acostumados ao transporte ferrovirio, conheceram o charme e a tranquilidade da Maria Fumaa.

Alis, tratava-se de calmaria para dar e vender: os cerca de 700 quilmetros foram transpostos em pouco menos de trs dias. Uma mdia aproximada de 10 km/h. No toa, conta-se que os viajantes mais entediados desciam do trem e corriam atrs dele como forma de divertimento. O relevo ngreme nas serras, as chuvas frequentes, animais sobre os trilhos, reabastecimentos constantes, tudo contribuiu para que Barrichello olhasse para a cena e dissesse: Hoje, sim! Hoje, sim! Desses alemes eu ganharia. Mal sabia ele...

Alm do passeio ferrovirio, surpreendeu a maioria dos subios o intenso frio guarapuavano. Afinal, os viajantes deixavam os glidos Alpes austracos para recomearem suas vidas no pas tropical, abenoado por Deus, eles pensavam. Ainda no existia hashtag, mas s que no deve ter sido uma das primeiras expresses idiomticas aprendidas em portugus. Sim, geava no dia 8 de junho de 1951, na chegada a Ges Artigas, ao passo que quase ningum havia trazido cobertores mais pesados, justamente por serem muito pesados e porque o Brasil deveria ser quente, s que nein.

O mesmo apuro passaram os 514 subios do terceiro transporte, que desembarcaram no dia 8 de outubro do mesmo ano. Exato, geada em plena primavera, segundo relatos trmulos. J o segundo transporte, que trouxe 87 subios, o quarto (500 viajantes), o quinto (473), o sexto (239) e o j mencionado stimo transporte no passaram por tanto frio ao fim das trs semanas de viagem. Cinco deles foram patrocinados pelo mesmo navio Provence, embarcao de nome francs, partindo sempre da italiana Gnova. J o segundo zarpou de Le Havre, na Frana, e tambm tinha denominao francesa: Lavoisier. Por fim, a sexta embarcao tinha alcunha italiana (Conte Biancamano) e saiu do porto genovs. Como diria o poeta alemo Tadeu Schmidt: sabe o que isso significa? Nada s foi exposto a ttulo de informao mesmo.

Fato que, assim como geada e Carnaval no combinam, ningum havia avisado aos novos habitantes que Brasil e Guarapuava eram pases distintos: num faz calor, no outro, o frio bebe chimarro com Stroh Rum para se esquentar. Ainda assim, em ambos, tem Carnaval.


** Originalmente publicado como Coluna para o Jornal Correio do Cidado. Acesse aqui: https://www.correiodocidadao.com.br/noticia/carnav...


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