​Sopa de cobra e barbeiro dentista: causos hilários dos primórdios de Entre Rios

30/10/2019

Por Klaus Pettinger*

“Eita, frio paia, piazada!”, teriam dito os primeiros Suábios do Danúbio ao desembarcarem em Góes Artigas, se já conhecessem um mínimo de “guarapuavês”. Não era o caso. Em vez disso, devem ter exclamado “Jau mene! Is tes kalt!”, algo como “minhas arma, que frio!”. O inverno de 1951 não foi a única surpresa vivida pelos pioneiros, que esperavam por um clima tropical na terra do Lobo Bravo. Aliás, sequer imaginavam que havia lobos por essas bandas, ainda que se falasse em tigres ferozes e se temesse os touros com chifres gigantescos que, vez por outra, surgiam do nada para coçarem as próprias costas nas paredes de madeira das casas durante a madrugada.

Vivia-se numa época, em que fake news eram candidamente incutidos em causos, por sua vez difundidos à boca pequena (bem menor, aliás, do que a das rãs gigantes que coaxavam tão alto e intensamente nos córregos, que o som se assemelhava ao do choro de um bebê). Enquanto a nova comunidade era erguida, sobrava tempo apenas para as crianças se divertirem e aprontarem das suas. Elas adoravam brincar nos gigantescos cipós até então desconhecidos para elas, em um bosque da Colônia Vitória, próximo à Praça Nova Pátria, logo batizado de “Affenwald”, ou Floresta dos Macacos, em função da população considerável de adoráveis e espertos micos (não se sabe exatamente de quais espécies), que se aglomerava na ilha de árvores centenárias em meio à vastidão dos campos verdejantes de Entre Rios.

As crianças corriam descalças colinas acima e barro abaixo, de modo que não tardaram a ser apresentadas também a outra nova companhia, digamos, profundamente fiel: o deliciosamente coçável bicho-de-pé. Por sinal, médico era algo tão raro quanto asfalto na região. Logo, ficar doente era uma péssima ideia. Mas há o causo verídico de uma menina que estava com uma dor lacerante de dente, ao ponto de não deixar ninguém mais dormir à noite. Até que sua mãe deu o veredicto: era hora de ir ao barbeiro e cabelereiro da colônia. A menina não entendeu: o que doía era o dente, não a franja. Felizmente, a mãe logo a tranquilizou, dizendo que o barbeiro iria arrancar o dente dolorido.

Enquanto a genitora entrava no “consultório de beleza” para confirmar se o cabeleireiro tinha horário na agenda para passar uma máquina zero num dente de leite, a filha tomou chá de sumiço. Apareceu horas depois, tamanho o medo do tal Edward Mãos de Broca. Quando, porém, a mãe avisou que se a filha tornasse a chorar à noite, iria levar uma sova homérica, a pequena achou boa ideia voltar por conta ao “salão de periodontia”. Lá, sentou-se na cadeira e uma senhora segurou a cabeça dela com uma mão, abriu a boca com a outra e o “ortobarbeirodontista” arrancou a raiz do problema.

Tempos difíceis. Especialmente porque falar português para esses cidadãos de origem germânica era tão complexo quanto falar alemão para os habitantes de origem guarapuavana. Certa feita (desconfie quando alguém começa uma história dessa maneira), um suábio precisava comprar um cachaço. Para quem não é familiarizado com os termos técnico da suinocultura moderna, cachaço não é o marido da pinga, mas da porca. Sim, ele planejava uns Schnitzel com chucrute para o futuro. Foi a Guarapuava “conversar” com um criador.

Mas o suábio sequer sabia como se dizia “marido da porca” em português. Começou pelo básico: óinc-óinc pra cá, óinc-óinc pra lá, até que descobriu que suíno, em português, é porco. Ótimo, um progresso. Mas e o patriarca da família? Tentou algumas mímicas que fizeram o criador começar a olhá-lo torto. Até que finalmente veio a luz: o cachaço é um ser masculino, ou seja, um “Herr”, e ele já havia aprendido que “Herr”, em português, é “senhor”. Em poucos segundos, ele deu sua cartada final. Apontando o dedo indicador para o criador, perguntou: “Senhor Porco?”. Um tanto quanto ofendido, o criador mostrou o .38 que carregava na cintura e mandou o suábio para a... colônia. Por algum milagre, no entanto, ambos se entenderam e conseguiram concretizar o negócio.

Aliás, o vernáculo foi responsável por inúmeros causos conhecidos e outros tantos que jamais foram registrados. Anos após o estabelecimento da colônia, quando já havia um médico brasileiro em Entre Rios (ao contrário do asfalto), uma cozinheira suábia avisou, toda orgulhosa, sobre o prato do dia no hospital: “Hoje teremos sopa de cobra”. Horrorizado, o doutor logo recebeu uma explicação tranquilizadora: “Sim, eu sei, é algo muito fino, não é?”. O médico, ainda que tido como culto e viajado, continuava incrédulo. A cozinheira não parava de falar: “E eu preparei da forma como sempre fazíamos em casa, lá na antiga pátria: com leite coalhado”.

O médico sentou-se e começou a se “auto-auscultar” e a medir a própria pressão. “Você não fez isso!”, suplicou. Impassível e com largo sorriso de satisfação, a cozinheira continuou: “Claro que sim! E, veja só, hoje temos uma excepcionalmente grande! Dessas que só se encontra no Brasil! Significa que o senhor poderá repetir quantas vezes quiser”. O tiro de misericórdia veio com as seguintes palavras: “Aliás, ela está ali, atrás da porta, bem fresquinha, descansando à sombra!”. Descrente da vida, o médico enxugou o suor da testa, se apegou a um último fio de coragem e decidiu olhar o animal atrás da porta. Era sempre bom saber o que iria ingerir.

Assim que bateu os olhos na bendita “cobra”, suspirou aliviado: “Cozinheira do céu, você quis dizer abóbora?!”. “Isso, mesmo doutor! Abóbora! Desculpe, às vezes eu ainda confundo algumas palavras do português”.

*Publicado originalmente no jornal Correio do Cidadão - acesse aqui.


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