O dia mais feliz em sete anos

17/09/2019

Por Klaus Pettinger*

Se existisse Twitter em 28 de julho de 1951, a hashtag #lardocelar certamente estaria no trending topics do gigantesco município de Guarapuava – à época, com área equivalente ao tamanho atual de países como Líbano, Jamaica ou Kosovo. E não seria por acaso, nem pelo Luciano Huck: pela primeira vez em sete anos, as primeiras três famílias de Suábios do Danúbio voltavam a desfrutar a reconfortante sensação de ter um lar. Mais do que isso. Um local só seu, no qual pudessem organizar os caixotes com itens que simbolizavam suas vidas, empilhar suas felicidades em prateleiras improvisadas, organizar os sonhos cuidadosamente embrulhados na Europa e pendurar seu orgulho de rendas nas janelas de madeira.

As casas padronizadas e construídas em trabalho comunitário mediam 44 metros quadrados (ou 66m2 para seis ou mais ocupantes), com dois cômodos, que poderiam ser subdivididos, e uma varanda. Espaço de sobra para os poucos objetos trazidos do exílio na Áustria e aconchegante o suficiente para curar as angústias e perdas da guerra. O banheiro, para quem sentiu falta, ficava na “casinha” do lado de fora.

Conforme estabelecido em contrato assinado antes do embarque, cada cooperado teria direito a um lote de meio hectare, com uma casa de madeira, cuja titularidade seria definida por sorteio. As famílias teriam sete anos, sendo o primeiro de carência e realizado em trabalho comunitário, para pagar de volta o valor do terreno, mais os custos da casa, da viagem ao Brasil e, principalmente, das terras nas quais cultivariam o trigo do seu futuro. Uma dívida que somava em média, segundo documentos da época, cerca de 60 mil cruzeiros.

A maior parte desse valor se referia à área produtiva, que variava de acordo com o tamanho de cada família. Um casal, por exemplo, tinha direito a 15 hectares, além de 8 ha para cada força de trabalho masculina na família (entre 12 e 60 anos) e outros 4 ha para cada força de trabalho feminina, entre 14 e 55 anos. Um amplo plano dividiu as terras simetricamente em quadrantes de 500 por 500 metros, à semelhança de um imenso tabuleiro de xadrez. Novamente, um sorteio estabeleceria o futuro dos pioneiros: se a área seria produtiva ou composta por banhados, se era uniforme e plana ou se no lugar de terra produtiva havia apenas pedregulho e córregos.

De toda forma, o dia mais feliz de cada família de Suábios do Danúbio de Entre Rios foi aquele, no qual suas casas ficaram prontas para dar à vontade de recomeçar uma morada definitiva. Após serem obrigados a deixar tudo para trás por conta de uma guerra insana e viverem mais de 2.500 dias de favor em cômodos apertados no exílio, o destino, ranzinza desde 1944 ou antes, voltou a sorrir e concordou que era hora de recompensar essas pessoas.

O trecho abaixo, extraído e adaptado do romance de aventura étnica “O Sumiço do Hanomag”, tenta, ainda que com leveza, retratar os sentimentos conflitantes que pairavam no coração daqueles pioneiros, no dia em que deixaram as semanas de convívio em barracões comunitários para, enfim, ingressarem em suas próprias casas:

(...) Thomas e Hans já haviam caminhado por pelo menos meia hora, quando finalmente encontraram Susanne. “O que foi? Aconteceu alguma coisa com a Oma?”, perguntou ela, preocupada com sua avó. “Aconteceu, sim”, disse tio Hans, em tom sério. Thomas percebeu um leve tremor nos lábios de Susanne, cujos olhos imediatamente se umedeceram. “O que houve?”, perguntou ela, aflita.

“Já começamos a tirar todas as coisas dela do barracão comunitário”, disse ele. Susanne deu um grito de desespero. Thomas conhecia o jeito brincalhão do tio, mas não entendia como podia ser tão cínico. No fundo, queria ser assim também. “Susanne”, retomou tio Hans, “começamos a tirar as coisas da Oma do barracão porque...”. Antes de conseguir concluir a frase, Susanne revirou os olhos, seus joelhos cederam e ela caiu ao chão, desacordada.

“Desmaiou. Você acha que exagerei?”, perguntou tio Hans, sorrindo. “Um pouquinho, talvez”, disse Thomas, e deu de ombros. Logo, uma mulher veio correndo com balde d’água e despejou os quase vinte litros que cabiam nele de uma vez sobre o rosto de Susanne, que imediatamente acordou, assustada e tossindo muito. “Se você quer saber, agora achei exagerado”, disse Thomas ao tio. “Desculpe”, lamentou a senhora, envergonhada. “Acabei de buscar água ali no córrego para fazermos o almoço no barracão, quando vi a moça desmaiando”.

Hans deu uma gargalhada e ajudou a filha a se recompor. Apressou-se a, finalmente, esclarecer a situação. “Filha, nós vamos nos mudar para nossa própria casa. Você está entendendo?” Os olhos de Susanne brilharam fulgurosamente, segundos antes de se virarem novamente e ela apagar outra vez. Thomas e Hans olharam simultaneamente para o balde da mulher, mas não havia sobrado uma gota sequer. “Duas colegas estão vindo com mais dois baldes”, apressou-se a dizer a mulher. “Devem chegar a qualquer momento”. Tio e sobrinho deram nova gargalhada e decidiram esperar. Aquele dia não poderia ter sido melhor.

*Coluna publicada originalmente no jornal Correio do Cidadão (https://www.correiodocidadao.com.br/noticia/o-dia-...


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